Cínico Diógenes no cântaro
FILOSOFIA

Quem eram os cínicos?

Os cínicos são filósofos que fundaram uma das escolas mais expressivas do helenismo, adotando um estilo de vida radical. Mas quem eram e como vivivam?

O termo cínico vem do grego kynikos, que significa “viver como um cão”. Essa imagem é muito representativa dos cínicos, que conheceremos melhor neste artigo. Se você tem interesse no assunto, confira aqui outro artigo com anedotas e histórias sobre Diógenes, o cínico.

Historicamente, os cínicos surgiram antes da era helenística, mas somente nela o cinismo se torna mais mais expressivo. Vamos conhecer dois de seus principais filósofos.

Antístenes, o primeiro cínico

Antístenes, que viveu entre 444 e 365 a.C., foi seu fundador. Ele teria se encantado com a vida e a mensagem propagada por Sócrates e resolveu acompanhá-lo para aprender o verdadeiro significado da existência. Após a condenação e execução de Sócrates, abandonou o círculo aristocrático a que pertencia e resolveu viver uma vida simples.  

Como Sócrates, Antístenes passou a usar roupas iguais às que os trabalhadores rurais vestiam, trocando o conforto da vida aristocrática por uma vida mais humilde com os pobres de Atenas. Também começou a fazer discursos ao ar livre e buscou transformar a mensagem filosófica em algo simples, para que qualquer pessoa a compreendesse. Várias vezes declarou que as filosofias que se ocupavam do cosmos eram inúteis.  

Antístenes acreditava que a meta da filosofia era desenvolver um programa comprometido com a busca da verdadeira natureza humana. Com isso, despertou o interesse de um jovem chamado Diógenes de Sínope (404 – 323 a.C.), que insistiu em seguir Antístenes para se tornar seu discípulo.

A vida filosófica de Antístenes

Fiel aos preceitos de Sócrates, Antístenes rejeitava qualquer tipo de relação nos moldes tradicionais. Colocava-se como homem livre e pronto para falar com qualquer um, sem necessidade de ser mestre de alguém em particular. Antístenes não era um sofista nem um platônico; seu objetivo era simples: oferecer ao indivíduo, que vive em meio a uma cidade que declinava politicamente e apontava para um domínio tirânico, a chance de se reencontrar com a sua própria natureza.  

Diógenes, o cão

Diógenes de Sínope insistiu tanto para estar na companhia de Antístenes, que acabou vencendo sua resistência e se tornando o legítimo herdeiro das teses filosóficas do movimento cínico na Grécia. Para quase todos os historiadores da filosofia, ele foi uma figura tão importante para o cinismo, que sua fama ultrapassa a de Antístenes. Diógenes radicalizou as teses centrais do cinismo a ponto de adotar uma vida que chocava a maioria das pessoas.  

A vida filosófica de Diógenes

Baseando-se na tese da “busca pelo homem”, Diógenes passou a rejeitar todos os valores sociais, defendendo que não deveriam existir governos, propriedades privadas, casamentos nem religião oficialmente estabelecida. Condenava violentamente a escravidão e os prazeres artificiais. Somente reconhecia como legítimas as necessidades naturais, como ter fome, sede, dormir e manter relações sexuais.  

Por isso, ele desdenhava o luxo e as instituições e, segundo relatos, decidiu viver dentro de um cântaro (uma espécia de grande vaso), alimentando-se dos restos que lhe eram dados pelas pessoas. Vivendo como um cão, logo ganhou o apelido de “Diógenes, o cão” e procurou levar adiante sua crença fundamental de que devemos viver uma vida autêntica, natural.  

A vida autêntica só se realiza quando aceitamos que o que importa é estabelecer claramente quais são os valores verdadeiros e os falsos, sendo que o restante não passa de convenções sociais que merecem ser ignoradas, porque são contrárias à natureza do ser humano. O compromisso com a busca dos verdadeiros valores torna a doutrina cínica extremamente importante para os gregos do século IV a.C.  

A vida conforme a natureza

Diógenes entendia que a vida conforma a natureza só podia ser vivida quando nos livramos dos desejos artificiais. Por isso, ele insiste na libertação total do homem de seus vínculos artificialmente criados pela sociedade. Certa vez, quando perguntado de onde era, respondeu com desdém que pertencia ao mundo e que não se sentia preso a nenhuma pátria, um autêntico cosmopolita (pessoa que se considera cidadã do mundo).

Sua figura, pela grande autenticidade, foi sempre recheada de anedotas. As mais interessantes estão associadas aos frequentes encontros com Platão e Alexandre Magno.  

Diógenes não pensava duas vezes para interromper alguma exposição platônica sobre temas metafísicos para provocar: “Procuro o homem!” Diante da decadente situação grega, Diógenes considera desprezíveis os ensinamentos de Platão, por serem cercados de teor metafísico e matemático. Para ele, o que verdadeiramente importa é a reconciliação do homem com sua própria natureza.   

Encontro com Alexandre, o Grande

Já com Alexandre, seus encontros eram verdadeiras sínteses dos valores existentes naquele período histórico: de um lado, o grande conquistador que podia tudo; de outro, o homem cínico que somente deseja viver de acordo com a natureza.

Intrigado pela popularidade de Diógenes, Alexandre, o Grande se aproximou dele e perguntou se poderia oferecer algo a Diógenes. Então, o filósofo respondeu: “Sim, pode sair da frente do meu Sol”. E continuou deitado como se estivesse falando com um cidadão qualquer. Esse encontro foi tão marcante que Alexandre chegou a afirmar que, se não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.  

O impacto do cinismo

Os cínicos seduziram os gregos desiludidos com os governantes e descrentes diante dos rumos que a sociedade tomava. Como filosofia, o cinismo foi talvez a mais completa rejeição dos valores sociais e a mais radical procura pela vida virtuosa. 

Para saber mais…

Se você quer conhecer melhor os cínicos e outras escolas filosóficas da Antiguidade, recomendo:

  • Pierre Hadot. O que é a Filosofia Antiga. (Editora Loyola).
  • R. Bracht Branham & Marie-Odile Goulet Caze. Os cínicos: o movimento cínico na antiguidade e o seu legado. (Editora Loyola).

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Sou Bacharel e Mestre em Filosofia (UFF). Doutoranda em Filosofia (UFRJ). Apaixonada por cães, gatos, séries e livros.

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