Sêneca e o tempo
FILOSOFIA

Sêneca & o tempo

Sêneca foi um filósofo romano que propõe uma importante reflexão sobre o tempo e a vida na primeira epístola das Cartas Morais a Lucílio. Confira:

Quem foi Sêneca?

Lucius Annaeus Seneca nasceu em Córdoba entre 4 a.C. e 1 d.C. Ele se mudou para Roma ainda criança, onde estudou com o estoico Átalo, os neopitagóricos Sótion e Papírio Fabiano.

Viveu no Egito durante a juventude e voltou para Urbe em 31 d.C., quando iniciou a carreira pública de um cidadão romano. Dez anos depois foi exilado por Cláudio, regressando oito anos depois para ser o preceptor de Nero. Em 65 d.C., cometeu suicídio por ordem de Nero, após ser acusado de envolvimento numa conspiração.

Sêneca escreveu mais de uma centena de cartas em latim, que chegaram até nossos dias, algumas das quais com lacunas. O texto que trago hoje, traduzido pela professora Renata Cazarini de Freitas (UFF), é de uma carta destinada ao amigo Lucílio, com o objetivo de orientá-lo.

Vale destacar que Sêneca, apesar do ecletismo, é reconhecido como tendo sofrido forte influência do Estoicismo, uma filosofia que se caracteriza como uma forma de vida.

  Epístola 1, Cartas Morais a Lucílio

Cumprimentos de Sêneca a Lucílio  

1 Faz assim, meu caro Lucílio: toma posse de ti mesmo, e o tempo que até aqui ou te era roubado ou surrupiado ou se perdia, reúne e preserva. Convence-te de que é como eu te escrevo: uma fração do tempo é arrancada de nós, outra fração nos é subtraída, outra se esvai. Contudo, o desperdício mais vergonhoso é o que ocorre por negligência. E, se notares bem, grande parte da vida escapa aos que fazem pouco, a maior parte, aos que nada fazem e a vida inteira, aos que fazem o que não importa.  

2 Quem tu podes citar que ponha algum preço no tempo, que atribua um valor ao dia, que compreenda que está morrendo diariamente? De fato, nos deixamos enganar quanto a isso, porque vemos a morte mais à frente: grande parte dela já está no passado. Tudo na existência que ficou para trás pertence à morte. Logo, meu caro Lucílio, faz o que me escreves que vens fazendo: abraça todas as horas. Assim, acontecerá de dependeres menos do amanhã se tiveres tomado o hoje em tuas mãos. A vida transcorre enquanto é adiada.  

3 Tudo é alheio a nós, Lucílio, apenas o tempo é nosso. Desse único bem fugaz e furtivo a natureza cedeu-nos a posse, da qual nos priva quem quiser. E é tamanha a estupidez dos mortais que até se sujeitam a ser cobrados quando obtiveram coisas mínimas e sem valor, que certamente podem ser repostas. Não se deve considerar devedor de nada quem aceitou o tempo, pois esta é a única coisa que nem mesmo um homem agradecido tem como restituir.  

4 Perguntarás, talvez, o que faço eu, que te dito estes preceitos. Falarei abertamente: como acontece a quem gosta do luxo, mas é cuidadoso, faço o controle dos meus gastos. Não posso dizer que não perco nada, mas tenho como dizer o que perco e por que e de que maneira. Posso prestar contas da minha pobreza. Mas comigo acontece o mesmo que acontece com a maioria das pessoas reduzidas à indigência não pelo próprio erro: todos perdoam, ninguém socorre.  

5 Qual a conclusão? Não considero pobre quem se satisfaz com o pouco que lhe resta, contudo, prefiro que tu preserves o que é teu, e começarás em boa hora, pois, como diziam nossos antepassados: “É tardia a parcimônia no final”. De fato, o que fica no fundo não é apenas o restinho, mas a borra.   Desejo tudo de bom.   


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Sou Bacharel e Mestre em Filosofia (UFF). Doutoranda em Filosofia (UFRJ). Apaixonada por cães, gatos, séries e livros.

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