Uma lição de Epicteto para os orgulhosos

homem com troféu

O que um filósofo estoico, escravo liberto, que viveu na Roma do século I d.C., pode nos ensinar sobre o orgulho nosso de cada dia?

Entre os estudiosos, é comum entender a Filosofia, na Antiguidade, como forma de vida. Em suma, isso significa que a Filosofia não era apenas uma atividade teórica, mas uma prática, um certo modo de viver, que tinha como objetivo alcançar a eudaimonia e a imperturbabilidade.   

Então, lançamos hoje uma série de artigos sobre as lições de Epicteto para diversas situações, começando com lições para os orgulhosos.  

Quem foi Epicteto?

Epicteto foi um filósofo estoico do século I d.C. Frequentou as aulas do estoico Musônio Rufo. Assim como Sócrates, não deixou nada escrito. O que sabemos de seus ensinos são fruto de anotações de seu discípulo Arriano, que escreveu máximas no que ficou conhecido como o Manual (Encheiridion) e em 4 livros das Diatribes.    

Um dos elementos mais importantes da filosofia epictetiana é a distinção entre as coisas que dependem de nós (eph’ hemîn) e as que não dependem de nós (ouk eph’ hemîn). Aquelas que dependem de nós são os nossos desejos e repulsas, impulsos e juízos. Todas as demais coisas não dependem de nós; são indiferentes, isto é, podem ser bem ou mal usadas. 

Quer conhecer mais de Epicteto? Confira esse outro artigo:

Uma lição para orgulhosos

Baseado na distinção entre o que depende ou não de nós é que Epicteto afirma:

Não te exaltes por nenhuma vantagem de outrem. Se um cavalo dissesse, exaltando-se: “Sou belo”, isso seria tolerável. Mas quando tu, exaltando-te, disseres: “Possuo um belo cavalo”, sabe que te exaltas pelo bem do cavalo. Então o que é teu? O uso das representações. Desse modo, quando utilizares as representações segundo a natureza, aí então te exalta, pois nesse momento te exaltarás por um bem que depende de ti. (Manual, 6)

Já é clichê falar que as pessoas estão mais preocupadas em ter do que ser. Mas acredito que Epicteto vai além, porque afirma que há pessoas que confundem a si próprias com as coisas que possuem, julgando ter um valor que, na verdade, pertence à coisa, não a elas.

É preciso, então, distinguir quem somos das coisas que possuímos e aplicar o valor correto a cada um. Epicteto elogia quem sabe fazer o uso correto das representações, ou seja, sabe identificar as coisas que dependem ou não de si. 

Um exercício filosófico

É um exercício diário, especialmente numa sociedade de consumo como a nossa. Pergunte-se: por que eu quero comprar aquele item? O que eu espero obter com aquilo? 

O imperador e filósofo Marco Aurélio orienta a fazer uma descrição física da coisa que nos provoca o desejo, decompondo-a “para vê-la tal qual é na essência, nua e por inteiro distinta no seu todo, e dizer, de si para consigo, o nome que a designa” (Meditações III.11). Esse exercício considera a realidade como ela é, sem acrescentar opiniões baseadas na tradição, costumes, preconceitos ou desejos. Ele dá um exemplo:

“Essa púrpura [imperial] é pêlo de ovelha tinto com o sangue de um molusco. A união dos sexos é uma fricção de ventre com ejaculação, num espasmo de um líquido gosmento.” (Meditações IV.13). 

Se fizermos esse exercício contemporaneamente, diríamos: o que é o celular “x” ou “y”? O que é o carro “tal”? A roupa da marca “tal”? Quem eu sou e o que ter essas coisas significa para mim?

O que você acha? Concorda com Epicteto e Marco Aurélio? Deixe um comentário abaixo e compartilhe esse artigo nas suas redes sociais. 😉

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